Semana do dia 28 de abril ao dia 04 de maio de 2025
Sala das Lágrimas
Fiquei triste com a morte do Papa Francisco. Eu me lembro também de ter ficado triste quando o Karl Lagerfeld, que morava na rua vizinha à minha em Paris, morreu. Um da Igreja, outra da moda... Sinto como se fossem avós distantes que, pela experiência, por estarem à frente de algum movimento, lideram algum ideal, algum caminho que traz, com a idade, doçura.
A primeira vez que fui para Roma foi com a minha mãe. Ela queria muito me mostrar a cidade, a força daquela história toda, dos monumentos e da energia que persiste e vive ali. Ela queria muito me mostrar também o buraco da fechadura: pegamos um táxi de noite, "para fazer citytour", do jeito que ela ama, e ela pediu para que ele nos levasse até lá. O que vi foi inesquecível. Para manter a surpresa aos quem não conhecem: em Roma, busque pelo buraco da fechadura.
Naquela vez, estando em Roma, pensei também que, já que iríamos visitar o Vaticano, poderíamos tentar ver o Papa. Sorte: o dia seguinte da nossa chegada seria quarta-feira e às quartas-feiras o Papa faz discurso na Praça São Pedro. Quarta-feira às cinco horas da manhã éramos praticamente as segundas pessoas da fila de espera que se formava para entrar na Praça.
Depois da mensagem, que durou a manhã inteira e contava com brasileiros e bandeiras na primeira fila, minha mãe falou: visita você o Museu do Vaticano, já que gosta de se demorar; eu já conheço, vou voltar para o hotel.
Foi o que fiz. Não esperava que, depois das salas de mapas, encontraria ali também, na mesma visita, a Capela Sistina.
Com o olhar elevado para o afresco de Michelangelo no teto da Capela, enquanto escutava o audioguia em italiano, me emocionei lembrando daquela minha curiosidade e prazer em estudar a língua, ainda adolescente e sem saber quando um dia realmente visitaria a Itália. Com fome, resolvi dar uma pausa na visita para ir comer. Em busca da lanchonete, escolhi passar por uma porta diferente da que entrei e, ao invés de lanchonete, passei pela que não sabia ser a Sala das Lágrimas e entrei sem querer nos aposentos privados do Papa.
Doce Cuentos Peregrinos
Do jeito que gosto da ideia de listas, como já contei aqui, às vezes me interesso pelas listas de outras pessoas, para ver o que posso acrescentar nas minhas. Ou o que das minhas já fiz das dos outros... enfim, como fiquei feliz recentemente em ter lido o melhor romance do nosso século, segundo The New York Times, o primeiro livro da tetralogia da Elena Ferrante.
Bem, dentre os dez livros da lista deste ano do Clube do Livro da Gabriela Prioli e do Leandro Karnal, a quem eu adoro ouvir, está um livro de contos do Gabriel García Márquez que eu ainda não tinha ouvido falar: Doze Contos Peregrinos. Agora que escrevo, percebo que gosto também de livros de contos, pois seriam também como uma leitura em lista? Nesse caso, seriam doze contos, doze itens.
Li o primeiro. Mas, além de ficar feliz por conseguir tentar fazer caber, na história do primeiro conto, minhas memórias de um único dia passado em Genebra a convite de uma amiga que tinha uma passagem de trem sobrando, por enquanto, o que mais gostei da leitura foi o prefácio. Nele, GGM conta sobre seu processo criativo. Como pessoa criativa que, às vezes não entende ou não vê onde os caminhos estão me levando, às vezes me pergunto: o que tem a ver escrever com fazer roupa? Apesar de sentir essencial percorrê-los (os caminhos), defendo sobretudo meu caos, como danças dionisíacas, danças descalças. Seria o próprio criativo um peregrino?
E fiquei também feliz ao ler em espanhol.
Mancha de Vinho
Estávamos em turma jogando Dixit na casa de um casal de amigos queridos. Eis que, na empolgação da competição, derramei minha taça cheia de vinho tinto no shorts preferido, de linho branco, do meu namorado. O branco ficou roxo.
Tudo bem: em 2022, quando fomos para o casamento de outro casal de amigos em Mendoza, na pista de dança, outro amigo derrubou uma taça de vinho tinto na novíssima camisa feita sob-medida, de algodão branco, do meu namorado. Os garçons argentinos, acostumadíssimos com esse tipo de acidente, imediatamente arrumaram uma bacia e mergulharam a camisa em vinho branco.
Dessa vez, fiz o mesmo, então: pedi para entregarem uma garrafa de vinho branco barata, coloquei o shorts no secador de saladas que era o que minha amiga tinha em casa à disposição, e despejei o vinho assim que chegou. Trouxe para casa o shorts mergulhado em vinho. Deixei repousando durante a noite e, na noite seguinte, as manchas principais já tinham saído. Lavei à mão com sabão neutro. As manchas mais tenazes, esfreguei com um sabão em barra de água oxigenada. E depois coloquei na máquina de lavar. E o branco voltou a ser branco.